Por onde tudo começa ou o que ninguém fala sobre o bem-estar por Virginia Weinberg

Por onde tudo começa ou o que ninguém fala sobre o bem-estar por Virginia Weinberg

Mar 28, 2026

Maria Helena me convidou para escrever este texto e compartilhar um pouco da minha visão sobre bem-estar, trazendo para vocês o meu olhar sobre saúde, beleza e as tendências que tenho observado.

Me senti honrada e, confesso, também bastante responsável. Existe um cuidado em não falar bobagem, em conseguir separar o que é hype do que realmente vale a pena olhar com mais atenção e investigar com profundidade.

Para quem ainda não me conhece, sou fundadora da Olera, uma marca brasileira de skincare biotecnológico. Um projeto que nasceu em 2019, pouco antes da pandemia, depois de uma viagem à Amazônia.

Naquele momento, eu vinha de Hong Kong, onde morava, e estava fazendo um sabático de seis meses pelo mundo com meus três filhos ainda muito pequenos — Riyo com dois anos e meio, e os gêmeos Ata e Astro com nove meses —, duas babás e meu agora ex-marido.

Por fora, era uma vida que parecia incrível. Viagens constantes, uma rotina quase cinematográfica. Mas, por dentro, existia uma sensação muito forte de desalinhamento. Uma insatisfação difícil de explicar, uma ausência de propósito além do papel de esposa e uma desconexão profunda com quem eu realmente era.

Lembro de buscar tudo o que podia para me sentir melhor. Baixei aplicativos de meditação, fiz terapia intensiva, participei de rodas de oração no WhatsApp, li tudo o que encontrava na tentativa de entender o que estava acontecendo comigo.

E, ao mesmo tempo, eu também me distraía. Bebia, fumava meu cigarro, me ocupava com o que fosse necessário para não encarar o desconforto. Talvez com medo de ver com clareza aquilo que, no fundo, eu já sabia.

Passei por uma crise existencial profunda aos 37 anos. Para quem já leu Tomar a vida pelas próprias mãos, é aquele momento em que a grande mudança se impõe. Para quem está minimamente atento, é o ponto de virada: ou você escuta, ou rompe.

No meu caso, rompeu.

Dois anos depois, me separei. E comecei, de fato, o grande projeto da minha vida: a reconstrução de mim mesma. Um processo lento, corajoso, muitas vezes dolorido, mas inevitável. Eu sabia que não conseguiria continuar vivendo desalinhada da minha alma e do meu desejo de contribuir de forma mais verdadeira.

Esse movimento começou há anos e continua até hoje. É um trabalho diário de escuta, de ajustes, de transformação constante em busca do que, de fato, me faz bem.

Compartilho essa história porque, para mim, tudo começa aí. Toda e qualquer transformação real começa com um olhar profundo para dentro. Para aquele lugar onde vivem os hábitos que nos sabotam, onde nos escondemos porque é mais confortável, onde contamos pequenas mentiras para justificar aquilo que, no fundo, já sabemos que não queremos mais ser.

Mudança de verdade exige um acordo interno. Um alinhamento honesto com quem queremos nos tornar. Com como queremos nos sentir. E isso pede silêncio. Pede espaço. Pede escuta.

É nesse lugar que a verdade aparece. E é ali que mora o bem-estar que tantas vezes buscamos do lado de fora.

A indústria do consumo está cada vez mais sofisticada em criar universos que nos fazem acreditar que a transformação está em algo externo. Mas a perenidade de uma vida alinhada entre corpo, mente e espírito só se constrói a partir de um mergulho interno — um lugar que nem sempre estamos dispostos a acessar.

Hoje, é quase consenso entre especialistas em longevidade que existem pilares básicos que sustentam qualquer transformação: qualidade do sono, alimentação não inflamatória, relações saudáveis, movimento diário, menos excesso digital e mais contato com a natureza.

A longevidade que tanto se fala não está apenas nos peptídeos ou nas tecnologias mais avançadas. Ela está, antes de tudo, no básico bem feito — todos os dias.

No livro Hábitos Atômicos, a ideia de evoluir 1% ao dia parece simples, mas é profundamente transformadora. Pequenas mudanças, sustentadas ao longo do tempo, geram um efeito cumulativo que muda a vida. Acredito muito nesse princípio porque ele traz algo que ninguém pode tirar: clareza interna. O corpo responde, a mente organiza, as decisões ficam mais coerentes.

E, a partir desse lugar, algo muda. A gente se torna mais criterioso com o que entra na nossa vida. Passa a eliminar excessos, a rever relações, a criar um ambiente mais favorável para evoluir.

Para mim, o bem-estar está diretamente ligado a essa limpeza interna. É ela que prepara o terreno para qualquer transformação externa.

Antes de buscar a próxima solução milagrosa, vale olhar para o básico.  Antes da caneta emagrecedora, experimente reduzir o açúcar. Antes de mais um protocolo complexo, valorize uma boa noite de sono. Antes de buscar fora, crie pequenos rituais dentro de casa.

Acender uma vela.

Respirar com presença.

Intencionar como você quer se sentir vivendo no seu próprio corpo.

Talvez o começo seja mais simples do que parece.

Divido com vocês alguns livros que me acompanharam nesse processo e seguem sendo fonte de reflexão até hoje:

Indomável, de Glennon Doyle

Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés

Tomar a vida pelas próprias mãos, de Rafael Echeverría

The Seat of the Soul, de Gary Zukav

Notes to Myself: My Struggle to Become a Person, de Hugh Prather

 

Por Virginia Weinberg.



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