IA, Hiking e Fé

IA, Hiking e Fé

Jun 19, 2026

Sou economista, trabalho no mercado financeiro há mais de 20 anos e tenista amadora apaixonada pelo esporte. Há cerca de dois anos percebi que a linguagem que usamos para conversar com investidores é compreendida por poucos e encontrei em analogias com o jogo de tênis formas mais lúdicas e divertidas de explicar conceitos complexos que ajudam as pessoas a investirem melhor. Assim nasceu o TenisVesting, minha newsletter no @andreamoufarrege/substack e @andreamoufarrege/linkedin 

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A convite do Savoir compartilho com vocês a última edição do TenisVesting que é, porém um pouco diferente. Fala pouco sobre de tênis ou sobre investimentos, mas por um bom motivo. Escrevi durante as férias em viagem de comemoração ao meu 25º aniversário de casamento com meus dois filhos. Dessa vez quis compartilhar como o uso das ferramentas de inteligência artificial me ajudaram nessa experiência, o que aprendi nesse processo, e quem sabe despertar em vocês também a paixão por um novo esporte: a prática de hiking. 

Planejar e sair férias é muito gostoso, mas a semana anterior a saída pra mim é sempre tensa no trabalho. Deixar tudo organizado para o período de ausência é estressante. 

Coincidentemente, a semana anterior à viagem foi especialmente intensa. Eu lidero uma comunicação mensal voltada a clientes para indicar alternativas de destaque no mercado de fundos de investimento. Depois de várias análises, discussões e alinhamentos, veio uma constatação interessante: parte do trabalho que antes exigia horas de gravações passou a ser simplificada pela IA. Minhas horas de áudio gravadas em edições anteriores viraram matéria-prima para uma ferramenta reproduzir minha voz e acelerar o processo. Um dia antes da minha saída de férias terminamos as várias análises quantitativas, conversas e texto. Dali para frente quem trabalhou foi a ferramenta de IA. O próximo passo é montarmos o agente que compile nossas conversas e tabelas analíticas, sugira os destaques, com base no racional que acreditamos, e já nos envie o áudio para revisão. Mas esse é um trabalho para depois das férias… 

Eu achava que a grande protagonista tecnológica dessas férias já tinha cumprido seu papel. Estava enganada. 

O destino inicial planejado para a viagem era o Líbano, país de origem do meu marido, mas a guerra forçou uma mudança rápida de planos que nos levou a usar o Chat GPT e Claude como nossos melhores agentes de viagem. Inspirada pela beleza da região, minha filha, sugeriu como alternativa a região das Dolomitas, ao norte da Itália, quase fronteira com a Áustria. Mal sabia ela que nessas montanhas, em uma pequena cidadezinha alpina de pouco mais de 3 mil habitantes chamada Innichen ou San Candido nasceu e cresceu ninguém menos que Jannik Sinner. Amei a ideia pois além das aventuras de hiking e biking com a minha família eu teria oportunidade de respirar os ares que ajudaram a criar esse gênio das quadras de tênis. 

 

 

Placa em estrada no trajeto até Cortina d´Ampezzo 

Com poucos comandos de datas e preferências o ChatGPT ajudou muito na seleção dos hotéis e restaurantes e programas (Dicas ao final do texto, recomendo todos!). Mais à frente no planejamento passamos a usar o Claude, com a criação de um projeto já incluindo todos os arquivos das reservas feitas, definição dos nossos gostos e preferências para pedidos de novas sugestões. Confesso que fiquei meio viciada nas interações. Tudo funcionando muito bem!  

Até que veio uma sugestão para fazermos um hiking em uma montanha chamada Tre Cime com fotos lindas e várias instruções inclusive para chegarmos cedo por conta do estacionamento. 

Na noite anterior, meu filho, que usa intensamente ferramentas de IA e conhece bem seus limites, fez algo simples: foi procurar fontes primárias. Visitou fóruns de discussão de hikers procurando informações sobre o clima e condições da montanha no dia anterior. Descobriu que o estacionamento para aquela trilha estaria fechado e que o acesso só seria possível com mais cinco quilômetros de caminhada. Isso nem ChatGPT nem Claude sabiam. Só os hikers que estiveram lá para compartilhar a informação e só os curiosos foram além das perguntas feitas ao Claude. 

Mudamos os planos para outra trilha com destino ao Lago Sorapis. Combinando as informações de IA com as dos fóruns e de uma boa conversa com o dono de uma pizzaria fomos preparados para 4,5 horas de caminhada com alguns trechos nevados, escorregadios e estreitos, mas esperando vistas espetaculares. 

A chegada até o lago, depois de 2 horas, cumpriu 100% plano, tanto na dificuldade quanto na beleza. Resolvemos evitar voltar pelo mesmo caminho para conhecer mais lugares e buscar outros desafios. O sinal da internet funcionava incrivelmente bem, e o Google Maps, nosso guia fiel, indicava uma altimetria razoável de subida com um ritmo de descida que parecia ainda mais suave que a alternativa do caminho de ida. 

 

 Lago Sorapis 

 

Em menos de 15 minutos, porém, vimos o tempo virar completamente. Essa parte o Claude tinha me alertado, mesmo que eu não tenha perguntado. O clima na montanha é muito instável. A chuva começou e foi apertando, assim como a intensidade das subidas, complexidade das pedras, erosões e cabos de apoio. 

 

Trecho de Trilha no retorno do Lago Sorapis 

 

Meu marido, que supera a cada desafio as lesões que quatro cirurgias de joelho impõem, acompanhava o caminho por uma pequena bússola no relógio. Preocupado mais com o impacto das descidas do que com o esforço das subidas, questionou: Paramos o carro ao norte, estamos escalando em direção sul, vamos ter que descer novamente, não é possível que esse caminho seja o melhor…. será que vale a pena? 

Trecho da trilha com apoio de cabo de aço 

 

Naquele momento tínhamos três guias: Google Maps, uma bússola no relógio do meu marido e nossa confiança, que talvez estivesse alta demais. A chuva apertou… fiquei com medo… continuei caminhando e cantei Gilberto Gil:  

“Andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá”. 

Ouvimos vozes. 

Eram dois hikers franceses descendo, super equipados. A melhor fonte de informação possível naquele momento: pessoas. 

Compartilharam que depois daquela subida de pedras havia pelo menos mais uns 30 min de caminhada até um trecho com neve até os joelhos, e depois outro lugar bem escorregadio que, nas palavras educadas deles, acompanhadas de um sorriso simpático, estariam bem desafiadores com a chuva. 

Decisão tomada: Vamos voltar. 

Aprendizado: ferramentas apontam caminhos, mas a experiência humana é essencial para entender e escolher qual deles realmente vale a pena seguir. E, naquele momento, confesso que senti também algo difícil de explicar: às vezes a fé entra justamente onde a tecnologia termina. Talvez Deus tenha colocado aqueles dois hikers franceses exatamente ali, quando precisávamos ouvir alguém dizer: ‘é melhor voltar’. 

Se tivéssemos subido aquele trecho teria ficado muito mais difícil voltar e os obstáculos à frente poderiam comprometer o restante da nossa viagem. 

Levamos 6 horas em uma caminhada que levaria 4:30h, conhecemos lugares incríveis, vimos vistas espetaculares, nos divertimos, conversamos muito e aprendemos que tecnologia é ótimo, mas gente é ainda melhor. 

 

Chegada da Trilha do Lago Sorapis 

 

Em uma dessas conversas minha filha, com seu olhar criativo e curiosidade quase infinita, me explicou como o tédio é importante para o processo criativo. A ideia desse texto nasceu nessa caminhada. 

No dia seguinte, fizemos a trilha no Tre Cime, mesmo com os 5k adicionais por conta do estacionamento fechado. Hiking também imperdível por lá, lindíssimo! 

 

Vista dos picos Tre Cime di Lavaredo 

 

No último dia contamos com um guia incrível, amigo de infância do Jannik Sinner, acreditam? Dessa vez para um passeio de bicicleta quando fomos as trilhas que só os locais conhecem. Dessa vez sem IA, sem aplicativos e sem telas. Só com alguém que conhecia aquelas montanhas desde criança. Melhor impossível. 

 

Caminho de passeio de bike

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Passei os últimos anos ouvindo que a inteligência artificial mudaria a forma como trabalhamos e vivemos. Ela também está mudando a forma como viajamos. Mas saí dessas férias com outra impressão: tecnologia ajuda muito a encontrar caminhos, mas pessoas continuam sendo a melhor forma de entender qual deles vale a pena seguir. 

E isso também vale para os investimentos, para o tênis e para a vida. Porque, no fim, a maior inteligência talvez não esteja apenas em fazer as perguntas certas para as máquinas, mas em saber ouvir quem aparece no nosso caminho e agradecer por isso. 

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Compartilhando aqui nossas dicas das melhores experiências nas Dolomitas: 

 

Hotel em Cortina : Casa Guarné

Guia Bike/Ski: Federico Corvi +39 338-405-7335, 



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