Através da Margem

Através da Margem

Apr 11, 2026

“Que a vida me traga amores mais belos do que eu posso imaginar e que eu tenha olhos para vê-los.” 

Escrevo esse texto enquanto estou com o computador aberto em mais de dez abas de trabalho, mas há cinco anos atrás, eu estava sentada na beira de um penhasco com uma amiga. Dessas amigas antigas, que você conhece há anos e sempre tem mais para conhecer.

O penhasco dava para uma praia em Portugal, na região de Algarve. Olhávamos para as ondas quebrando abaixo de nós e falávamos sobre amor, sobre apaixonar-se e desapaixonar-se também.

Acompanhavamos em hipnose o caminho das ondas, que iniciavam calmas e ganhavam potência até quebrarem na praia. Mas o que nos fascinava era, como podiam parecer calmas quando sabíamos, por experiência, afinal havíamos passado toda a manhã na praia, como eram fortes e frias, rispidamente frias.

O estranho era perceber a calma de um movimento quando observado de longe, um movimento que parecia tão intenso quando vivido de dentro.

Hoje, cinco anos após esse momento sobre o penhasco, estou escrevendo esse texto nas vésperas de um grande evento, o desfile da minha marca, a Le Shay, e essa cena é a primeira que me salta quando sento para escrever.

Tenho a tendência de acreditar que a proximidade de algo é o que nos garante o controle sobre ela, visão limpa e de plena consciência do cenário, mas olhando as ondas naquele dia percebi o contrário. Estranhamente, precisamos de uma certa distância de momentos de grande investimento emocional para termos uma visão mais clara sobre eles.

Sentadas no penhasco, falando sobre amor, as falas sobre paixões antigas ressoavam em contraposição com nossas observações em torno de paixões atuais. As antigas pareciam claras, cenários compreendidos. Já as paixões atuais, essas sim, eram arrebatadoras.

Para amar, é necessário estar presente, e não tomado. Estar um pouco longe é o que traz essa sensação de ter mais o que conhecer do outro, e isso fascina. É o reconhecimento de que por mais que o outro faça parte de quem você é, ele ainda assim é algo além do eu.

Curioso é perceber que tantas vezes tentamos controlar o que nos encanta por estar além do nosso controle. A distância é essencial para que haja presença.

Voltando ao desfile, me vejo em um estado passional perante este evento, mais uma vez, uma dessas paixões atuais e arrebatadoras. Todavia, durante os meses que antecederam o grande evento, enquanto contava com a tal distância, tive clareza de que

seria mais do que bom o suficiente. Agora sinto a falta de controle das paixões próximas demais.

O que eu poderia ter feito diferente? Essa pergunta não sai da minha cabeça, mas a pergunta que realmente faz alguma diferença é: O que eu poderia ter feito diferente e escolhi fazer da maneira certa?

O controle tem essa obsessão pelo que foge do seu alcance. Mas é o que é passível de gerência que deveria tirar nosso sono. É aqui que boas decisões importam. Isso sem falar na prepotência subentendida nessa mania de controle, acreditamos que a nossa forma seria a melhor, quando algumas surpresas carregam soluções que nem imaginamos. No trabalho, e no amor também.

Veja bem, há dois dias tirei tarot, e acredite quem quiser (eu, por exemplo, custei a acreditar), a carta que irá reger o meu próximo ano é simplesmente a carta do Diabo. Sim, você leu certo a carta é a carta do diabo.

A carta do Diabo assusta, pois dizem que ele chega para mexer, bagunçar. Mas é de movimento que precisamos de tempos em tempos. A intensidade tem seu papel. Além do que representa a carta do Diabo, acho que na vida o que mais deveria aterrorizar é a ideia de que, como canta Elis Regina, apesar de termos feito tudo que fizemos, continuaremos como nossos pais.

Para viver, é essencial surpreender-se. Não ser apenas uma “hipótese” de vida, de sonho, de amor ou de trabalho. Viver é sair do papel, seja tirar um sonho deste ou deixar o de lado um personagem, e ambas as situações implicam em abrir mão de certos controles.

Aliás, tem muita graça em surpreender-se consigo. Quanto mais me surpreendo comigo, mais tenho a certeza de estar presente, e não ser apenas uma hipótese de mim. Sou a onda e a observo de cima do penhasco, sinto seu toque intenso e acompanho seu movimento com certeza de uma certa essência.

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

A insustentável leveza do Ser,

Milan Kundera

Por Gabriela Helito



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