Acidentes Perfeitos ou Estado de Graça por Gabriela Helito

Acidentes Perfeitos ou Estado de Graça por Gabriela Helito

Aug 14, 2026

“Que a vida me traga amores mais bonitos do que eu possa imaginar e que eu tenha
criatividade o suficiente para percebê-los”


Por um tempo esse se tornou meu mantra, em uma fase de transformações na vida percebi que algumas das melhores coisas que surgem em nosso caminho a gente nem mesmo deseja, mas precisa ter o dom de percebê-las. A arte da despretensão caminha lado a lado da co-criação, de largar mão de certa parte do controle - esquecer-se de si e assim ser capaz de receber.


Recentemente retomei essa reflexão assistindo à entrevista de um artista que gosto muito. Ele contava sobre sua inspiração em um momento que à primeira vista parecia banal. Um dia, acidentalmente, observou uma amiga ouvindo pela primeira vez uma música clássica de Elvis Presley e se fascinou com a emoção que viu nela, tendo a realização de que: “Essa música esteve ali o tempo todo, esperando por ela, sem que ela ao menos sonhasse que ela existia.”

 


Pode ser bom sonhar, planejar, caminhar um pouco sobre a vida na falsa ilusão de controle. Mas por outras vezes a lembrança do desconhecido pode nos atingir em cheio. É necessário um certo vazio para receber a vida, uma pequena abertura para seguir caminhando sem esbarrar nos mesmos ciclos, possuir a chance de recriar seus próprios sonhos - sem se perder em uma imagem de si que quiçá está desatualizada.


Quando me pergunto sobre a essência das pessoas, caio sempre na sensação de uma única resposta: as pessoas são definidas pela forma como caminham pelas mudanças, a intensidade de cada um por este movimento, o prazer ou medo perante as novas marés.

Me parece difícil definir um sujeito por uma característica estática quando a vida exige de nós um certo balanço. Por vezes atravessamos a vida, insistimos por nossa vontade, mas por outras tantas vezes, é ela que nos atravessa.

 


Erro nosso seria acreditar que ser atravessado pela vida seria algo necessariamente  ruim, e corrermos atrás de retomarmos as rédeas da situação, quando na verdade, dentre as tantas coisas que não sabemos, podemos contar com a chance de uma boa música que estava todo esse tempo à espreita.

Esse seria o Estado de Graça, um acidente quase perfeito, momento em que parecemos beijados pelas boas venturas da vida. Surpreender-se com nós mesmos, descobrir um novo desejo, perceber um novo gosto e lembrar-se da imensidão que nos habita ao se deparar com a imensidão da vida à nossa volta.

 


Acidentes perfeitos nos aguardam e tudo que precisamos para esbarrar com o novo é abrir espaço, soltar as rédeas, deixar a vida fluir sob nossos pés, até que ela nos atravesse e algo nos beije de forma tão arrebatadora quanto um amor à primeira vista (por eles nunca se espera).



More articles