“Já que sou o jeito é ser” ,
Diz Clarice, através de Macabéa em A Hora da Estrela.

Desde nova gostei das mesmas coisas, mas será que sempre tive a competência de entender do que gostava? Acredito que a vontade, o querer, é o que há de mais livre em nós. E se tudo correr bem, com o passar do tempo nos aproximamos desse querer. Um querer que é quase instintivo.

Já cantava Caetano sobre a tal “bruta flor do querer”, irremediável, subjetiva e extremamente singular. O querer com muita força acho que é o que chamamos de dom. Recentemente assistindo aos filmes indicados ao Oscar, assisti Hamnet, e me peguei pensando: a arte realmente salva, porquê ela é o próprio artista. E como disse Clarice, já que somos, o jeito é ser.

Talvez não tenha dor maior do que aniquilar a si correndo na vida caminho contrário aos seus desejos. Quando se é se vai ser, sendo bom ou sendo ruim, tendo ou não talento, quer isso tenha ou não a ver com seu ofício.
O utilitarismo suprime a alma, o querer não tem finalidade, o querer é o ritmo do que se é. Amadurecer talvez seja aprender a ler o impulso que te guiou por tanto tempo de forma inconsciente.

Essa ideia de um guia inconsciente me lembra algo que sempre me fascinou: as coincidências. Acredito que este seja um fascínio comum, afinal, como pode dentre tantas possibilidades as reincidências? Ou as incidências que se encontram. Cantou Gal, em sua música Creio, “Tudo é incerto e por isso mesmo exato, tudo que for para ser será” .
A verdadeira delicadeza das coincidências está na diferença inegável que elas têm de destino. Coincidência não é premeditado, é seu oposto, aliás, é o que coincide de forma exata na não certeza ou premeditação da vida.
Coincidências me fascinam assim como o querer, pela exatidão no incerto, a exatidão improvável. O querer se mostra assim tão real, tão específico.
Grande parte das pessoas que amo, amo por suas especificidades. Sempre que percebo o querer de alguém me sinto apaixonada.

A amiga da música, a amiga do teatro, a amiga da dança e do bordado. Vida foi, vida veio, mas nada mudou. Mesmo se longe de suas paixões, com carreiras que fugiam do seu querer o Ser delas parecia achar uma forma de incluir a tal paixão na vida.
Me formei em moda e há 5 anos comecei a desenhar e desenvolver coleções. Recentemente, encontrei uma coletânea desses desenhos feitos há quinze anos.
Neste meio tempo, sem lembrança deste caderno, coincidência foi e veio, todas talvez guiadas por esse motor institivo que é o desejo, e dentre essas coincidências o encontro com seres apaixonados pelos seus quereres, com certeza me auxiliou no caminho de volta a minha paixão.